Com trilhas em novelas da Globo, Adailton Poesia quer conquistar música do Carnaval 

Compositor de Deusa do Amor e O Mais Belo dos Belos é um dos nomes fortes da música baiana

Ele traz a poesia no nome, mas não dispensa a boa prosa. Quando o Verão se aproxima aí é que Adailton Poesia, 50, fica ainda mais cotado. O ritmo tem sido esse há pelo menos 30 anos, desde que ele começou a compor para os principais blocos carnavalescos da cidade.

“Agora que eu estou com música no horário nobre da Globo o assédio melhorou mais”, diz, gargalhando, sobre o fato de Deusa do Amor, uma de suas composições mais conhecidas, estar na trilha de Amor de Mãe. Interpretada por Moreno Veloso, a versão é tema do casal Danilo (Chay Suede) e Camila (Jéssica Ellen), queridinho da trama.

(Foto: Reprodução/ Instagram)

No encontro com nossa reportagem ontem à tarde, no Pelourinho, ele chegou fazendo propaganda, vestido com a camisa cuja estampa era exatamente o trecho inicial da canção: “Tudo fica mais bonito você estando perto”. De braços abertos e sorriso largo, posou para a foto que ilustra essa página.

Embalo
Quem ouve os versos apaixonados nem imagina que eles surgiram quando Adailton transitava em um ônibus lotado – ainda hoje, um dos locais de maior inspiração para o compositor. “Aquele barulho todo, o povo falando alto, um brigando com o outro, e eu sem ouvir nada, eu não estava nem ali”, recorda sobre os momentos de transe.

O ano era 1996, e a intenção era inscrever a canção na categoria Poesia do Festival de Música do Olodum, o Femadum. Mas a música tomou caminhos não previstos depois que o parceiro Valter Farias, dupla de Adailton “em quase 99%” das músicas de blocos afro que ele compôs, a mostrou para  Pierre Onassis, então vocalista do Olodum.

Adailton Poesia vestido com uma camisa estampada com os versos de Deusa do Amor (Foto: Betto Jr./CORREIO)

“Mostramos com o intuito de lançar no festival, mas Pierre Onássis, com a ousadia massa dele, pegou a música e lançou no Largo do Pelourinho, antes de a gente inscrever no festival. Aí o público já tomou a música da mão dele, e virou esse sucesso. Como o Olodum já tinha o projeto de um disco, ela entrou no disco, e não no festival”, lembra o compositor.

Até hoje, Adailton não sabe se o caminho fosse outro se o sucesso seria o mesmo. Provavelmente não. Não porque lançar música em disco seja melhor que lançá-la em um festival, mas tão somente pelo fato de que com cada uma a história é diferente.

“A música é imprevisível, ela segue caminhos que você não entende. No caso de Deusa do Amor eu acho que a grande sacada foi essa, do meu parceiro Valter Farias ter mostrado a música a um dos maiores intérpretes do Olodum de todos os tempos. Foi o destino, e o que tem de ser será, e nunca será desfeito”, filosofa.

Em seus 24 anos de existência, Deusa do Amor foi regravada  por diversos intérpretes da música brasileira. “Até o clã Caymmi se rendeu”, diz satisfeito, sobre a gravação de Alice Caymmi, neta de Dorival.

O que poderia soar como uma “tiração de onda” passa longe disso, e logo se desfaz com a risada solta que é uma de suas características mais marcantes. Outra marca de Adailton é a  seriedade e a coragem com que defende aquilo que acredita.

Parcerias 
Nascido e criado na Rua Nova de Pirajá, ele é só gratidão e referência aos colegas. Além de Valter Farias, que cita a todo tempo, tem como padrinho o também compositor Luciano Gomes, autor de Faraó Divindade do Egito.

“Foi ele quem me apresentou a Valter, em 1987, e foi a partir desse encontro que surgiu tudo, inclusive meu nome artístico”, conta. Na época, Adailton estudava no colégio Marista, no Canela, e Valter trabalhava próximo dali, na cantina do então Hospital Getúlio Vargas.

Eles compuseram para a mesma edição do concurso que Luciano Gomes venceu com Faraó Divindade do Egito, a música Reagge dos Faraós, primeiro sucesso da dupla. “Foi daí que a gente começou a  se destacar como dois grandes compositores de blocos afro. Eu não sabia nem para que lado era cantar! Escrevia sei lá, porque aconteceu, mas chegar no palco e cantar eu sempre tremia”, recorda.

Apesar da diferença de mais de 20 anos entre ele e o parceiro, a sintonia logo se fez, e até hoje, a despeito dos problemas de saúde do amigo Valter Farias, Adailton ainda o procura para mostrar as composições que ainda segue fazendo para um bloco afro ou outro. Como o Muzenza, para o qual já assinaram Grito de Liberdade.

O compromisso com os festivais ele só mantém com o do Olodum. “Quem não quer estar na vitrine do Olodum? Mesmo depois de ter participado e ganhado vários festivais, ainda dá um frio no coração quando subo no palco do Femadum para defender uma música inédita“, confidencia, sem saber se um dia vai parar deliberadamente de concorrer ao Femadum.

(Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Ele também não sabe se um dia vai deixar de tremer ao subir no palco para defender uma música no festival. “Até hoje sinto o frio na barriga nessas horas. Porque é mais difícil, você chegar lá, com uma música nova, sem pesca…Você está sendo avaliado, qualquer coisa é eliminatória”, detalha Adailton, que este ano não ficou entre os primeiros da disputa.

Sonhos
Mesmo depois de tantos carnavais, Adailton Poesia segue mantendo os sonhos em dia. O de ter grandes intérpretes executando sua música já rolou, e agora, o desafio dele é que uma de suas composições se torne a Música do Carnaval de Salvador.
“Hoje está mais difícil, porque a maneira como  eu escrevo não é a maneira que o povo quer ouvir. Nos anos 90 talvez conseguisse, mas hoje qualquer coisa conquista o prêmio”, diz.

E é contundente em afirmar que para isso não gostaria de fazer uma música descartável, mas sim algo nos mesmos moldes que está acostumado a fazer, exaltando a beleza, o amor, a união e a harmonia e todos os valores que podem fazer do mundo um lugar melhor.

  • Alguns compositores de blocos afro

Tonho Matéria Além de ser vocalista do Araketu e do Olodum, compôs muitas músicas para os blocos, e também para artistas do axé. Para o Olodum, as mais conhecidas são  Arco Íris de Madagascar e Olodum Força Divina. No Araketu, assinou Tchaco, Me Abraça e Haja Paixão.

Sandoval Melodia Vencedor do Femadum deste ano com a música Lendárias do Tempo, o compositor do Nordeste  de Amaralina já teve músicas interpretadas pela Banda Mel, Jammil, Olodum e Terra Samba.

Valmir Brito Integrante do Cortejo Afro, compositor teve várias músicas interpretadas pela Banda Reflexus.

Guiguio Um dos mais importantes cantores de bloco afro (além de o mais antigo em atividade) compôs Ilê Pérola Negra, além de O Mais Belo dos Belos, junto a Adailton Poesia e Valter Farias

Luciano Gomes Criador de Faraó Divindade do Egito, compositor fez a música em uma semana a partir da apostila do bloco Olodum, que no ano de 1987 homenageou o líder do Império Egípcio

Sandro Telles É um dos compositores da nova geração do Ilê Aiyê, formada nos anos 2000. Hoje, coordena o Festival de Música do bloco, aliando tradição e renovação

  • Blocos Afro 2020

ILÊ AIYÊ
Tema do Bloco | Botswana: Uma História de Êxito no Mundo
Categoria Tema – 1° lugar | Como Manda o Figurino (autor Março)
2° lugar | Curuzu Meu Chão (autor Julinho Magaiver)
3°lugar | O Éden da Paz (autor Josiel Teixeira e André Lima)

Categoria Poesia – 1° lugar | Ilê Aiyê Sob a Luz de Nanã (autores Ajudo e Denny)
2° lugar | Valores Africanos (autora Núbia Carvalho)
3° lugar | Ilê Aiyê Nosso Mediador (autores JC Cabelo e Zenilton Ferraz)

MALÊ DEBALÊ
Tema do Bloco | Refavelando: Malê retorna à África com Gilberto Gil
Categoria | Tema Marcos Oliveira
Categoria | Poesia Sergio Baleiro

MUZENZA
Tema do Bloco |Tributo a Bob Marley
Festival de Música | Será realizado em maio, no mês de aniversário do bloco

OLODUM
Tema do Bloco Mãe, Mulher, Maria – Uma História das Mulheres
Categoria Tema –  1º lugar | Lendárias do Tempo (autores Sandoval Melodia e Romário Rocha)
2º lugar | Parto de Dor (autor Alisson Lima)
3º lugar |  Dilema das Marias (autores Valmir Brito, Ruy Poeta e Jô Nascimento)

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Source: Com trilhas em novelas da Globo, Adailton Poesia quer conquistar música do Carnaval – Jornal CORREIO | Notícias e opiniões que a Bahia quer saber

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