Em livro, Janot cita choro de políticos e ‘farmacinha’ de bebidas na PGR; leia resumo 

‘Nada Menos que Tudo’ traz memórias do ex-procurador-geral, que revelou ter cogitado matar o ministro do STF Gilmar Mendes

SÃO PAULO
Em 2017, Rodrigo Janot teria entrado com uma pistola no STF (Supremo Tribunal Federal) para matar o ministro Gilmar Mendes. Foi o que o ex-procurador-geral da República afirmou à Folha e a outros veículos nesta quinta-feira (26).

A razão do plano de assassinato seria insinuações que Gilmar teria feito sobre sua filha em 2017. Nesta sexta-feira (27), o ministro do STF se pronunciou em carta recomendando tratamento psiquiátrico a Janot, além de colocar sob dúvida a sua atuação como procurador.

A cena é descrita no livro de memórias de Janot, “Nada Menos que Tudo”, lançado neste mês, embora o nome de Gilmar não seja mencionado na obra.

Leia abaixo um resumo com os principais episódios mencionados por Janot no livro.

O APELO DE TEMER POR CUNHA

O livro começa com o relato de um encontro de Janot com o então vice-presidente Michel Temer (MDB) e o deputado Henrique Eduardo Alves (MDB-RN) no Palácio do Jaburu, em que teriam pedido que o PGR arquivasse investigação sobre o deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ).

“Eu chamei o senhor aqui porque quero conversar não com o procurador-geral da República, mas com um brasileiro preocupado com o Brasil, com um patriota”, disse Temer, segundo Janot.

“Cunha é um louco, pode reagir de forma imprevisível e colocar o Brasil em risco. Confiamos no senhor como brasileiro e como patriota para manter a estabilidade do país”, disse Alves.

Nesse momento, segundo Janot, o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, chegou para participar da reunião e testemunhou a conversa. Alves sugeriu que ele arquivasse a investigação sobre Cunha.

O ex-procurador diz que questionou Temer sobre a “gravidade” do que Alves propôs. “Ele está propondo ao patriota Rodrigo Janot”, disse Temer, segundo o relato de Janot. “Esse homem [Cunha] é muito perigoso, e a gente não sabe quais as consequências que poderão vir dele. Então apelamos para que o senhor não leve a cabo essa investigação, que a arquive”.

“O que os senhores estão me propondo aqui é que eu cometa um crime de prevaricação. Isso eu não farei jamais”, disse Janot. “E muito me estranha que o vice-presidente da República e o ex-presidente da Câmara dos Deputados venham fazer uma proposta indecorosa dessas ao procurador-geral da República. Estou chocado com a ousadia de vocês.”

“Os senhores são responsáveis por esse homem estar assumindo a Câmara. Os irresponsáveis são vocês. Vocês é que são os não patriotas. Como é que vocês fizeram uma merda dessas?”, acrescentou. Segundo seu relato, a conversa durou 20 minutos e terminou aí.

LAVA JATO, DELAÇÕES E FESTA

Janot diz que achou fraco o conteúdo das delações de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, no início da Lava Jato. “Tivemos uma grande decepção”, diz. “Isso tá uma merda, não tem nada, tá raso esse negócio!”, disse aos procuradores de sua equipe antes de mandar refazer os depoimentos.

Relata diálogo que Vladimir Aras tivera com “Souza”, provavelmente o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima. “Segundo ele, Souza disse que a intenção da força-tarefa era ‘horizontalizar para chegar logo lá na frente’, e não ‘verticalizar’ as investigações, e que, por isso, teríamos dificuldade em fundamentar os pedidos de inquérito. […] Não entendi direito esse conceito”, diz Janot.

Menciona a ida de Sergio Moro para o governo Bolsonaro e acrescenta: “Horizontalizar implicaria uma investigação com foco num determinado resultado? Eu não quis imaginar isso lá atrás e também não quero me esticar nesse assunto agora, mas isso ainda me incomoda um bocado, sobretudo quando penso em dois episódios separados no tempo, mas muito parecidos”. Cita os vazamentos do depoimento de Youssef sobre Lula e Dilma em 2014 e da delação de Palocci em 2018.

As declarações de Youssef “eram destituídas de qualquer valor jurídico. Youssef não compartilhava da intimidade do Palácio do Planalto e não tinha provas do que dizia”. Janot desconfia de “atuação com viés político”.

Após examinar delações de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, decidiu que os próximos acordos que envolvessem pessoas com foro seriam conduzidos por seu gabinete. E resolveu tomar novos depoimentos dos dois colaboradores.

O ministro do STF Teori Zavascki autorizou 21 inquéritos contra 50 políticos. “Não era a bomba atômica que se imaginava. […] Mas abriu uma avenida para a Lava Jato avançar.”

Janot também justifica o arquivamento dos casos de Dilma e Aécio: “Se o delator diz apenas que ‘ouviu dizer’, que não foi testemunha do suposto crime e não tem como indicar provas, o caso deve ser arquivado”.

Avisou os parlamentares que seriam investigados, mandando o assessor entregar a petição num envelope, pessoalmente. No caso de Cunha, “como ele estava em guerra comigo, achei por bem repassar o aviso pelo vice-presidente Michel Temer, com quem o deputado mantinha estreitas relações”. Também avisou o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Em 4 de março de 2015, desceu para ver manifestantes na porta da PGR, cerca de 30 pessoas. “[…] achava, de fato, importante receber apoio popular. Eu sabia que a reação do mundo político seria forte e, portanto, nenhuma ajuda poderia ser desprezada”.

Recebeu Rogério Chequer, do Vem Pra Rua, nessa época. Chequer sugeriu alvos para investigações e deixou com ele um kit do movimento.

Após a divulgação da lista de investigados, comemorou com a equipe. “Tiramos um dia de folga e esvaziamos algumas garrafas de vinho”.

ENCONTROS COM DILMA

Encontrou Dilma duas vezes. Na primeira, em 2013, disse que deveria ser “duro, muito duro com malfeitos”.

Na segunda conversa, para recondução, em 8 de agosto de 2015, não falou sobre a Lava Jato. Cardozo estava presente. “Nunca mais voltamos a falar.”

O APELO DE AÉCIO

Youssef citou Aécio Neves em depoimento ao grupo de trabalho da PGR no dia 12 de fevereiro de 2015. “O depoimento do doleiro era crível”, diz Janot, sobre propina da construtora Bauruense para obter contratos de Furnas. O problema é que testemunhas estavam mortas e não havia meios de comprovação.

Janot recebeu Aécio quatro vezes em seu gabinete. Ele falava da mãe, das filhas e da vida pregressa sem máculas. Chorava. Escreveu uma carta de três páginas para fazer apelo. “My life in your hands”, dizia o texto do tucano.

Eram “protestos sentimentais” desnecessários, e Janot arquivou o caso. “Se fôssemos abrir investigação contra todo político acusado por terceiros, sem provas, teríamos que investigar todos os ocupantes de cargos eletivos no país. A ideia pode não ser tão ruim, mas com certeza é inviável.”

Mais tarde, na época da delação da JBS, Aécio ofereceu cargos. Nove inquéritos foram abertos pelo STF a pedido de Janot para investigar Aécio Neves.

O CHORO É LIVRE

O deputado Henrique Eduardo Alves (MDB-RN) também procurou Janot. Depois, quando recebeu o envelope com petição para arquivamento do seu caso, baixou a cabeça e começou a chorar. Mandou garrafa de cachaça com carta de agradecimento.

Paulo Roberto Costa disse que Alves fez gestões em favor de uma termelétrica e visitou Jorge Zelada. Sem dar maiores detalhes no livro, arquivou.

O senador Valdir Raupp (MDB-RO) “chorou copiosamente” ao saber que seu caso seria arquivado também.

A ex-senadora e hoje deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) foi pedir clemência para seu então marido, Paulo Bernardo, que estava preso, e começou a chorar. Janot também chorou, lembrando do irmão Rogério Janot, morto, que foi usado por Collor para atacá-lo.

“A ideia é investigar todo e qualquer político contra o qual existam indícios mínimos de práticas de crime. Os requisitos para abertura de uma investigação estão previstos em lei. Eu não posso sair por aí abrindo inquérito só porque parece evidente que determinado personagem cometeu um crime.”

“E tem mais: se um desavisado qualquer resolvesse fazer algum tipo de insinuação, seria simplesmente preso em flagrante. O temor da mordida é de quem entra na toca do leão, não do leão.”

‘FARMACINHA’

Nos momentos mais tensos à frente da PGR, Janot conta que interrompia o trabalho e convocava a equipe para a “farmacinha”, como chamava uma geladeira que mantinha ao lado do gabinete abastecida com vinho, cerveja, uísque, cachaça, rum, vodca, gim etc.

“Na hora do aperto, quando a turma estava arrancando os cabelos, a farmacinha cumpria uma função terapêutica”, escreve.

Segundo Janot, ele engordou quase 30 quilos, fez dois cursos de tiro e passou a andar armado, com uma pistola .40 na cintura.

MORO E VAZAMENTOS

Encontrou Sergio Moro pela primeira vez no enterro do ministro do STF Teori Zavascki, em Porto Alegre. “Foi um encontro protocolar. Trocamos cumprimentos e seguimos adiante, cada um para um lado, sem entabular uma conversa mais longa.”

Janot diz que Teori se preocupava com vazamentos. “Em alguns casos, para segurança da própria investigação, algumas informações eram divulgadas. Mas algo entre 80% e 90% dos vazamentos tinha como origem bancas de advocacia interessadas em botar as delações na rua para criar na opinião pública uma posição favorável à homologação dos acordos.”

Elogia Teori por ter recuado no início da Lava Jato, tendo a “humildade de rever a própria decisão”, e cutuca Moro.

“Tempos depois, alguns disseram que ele teria ficado magoado com Sergio Moro. O juiz não o teria informado devidamente das condições dos presos e saíra do episódio como o magistrado da primeira instância que colocara um ministro do Supremo contra a parede. Se o ministro cultivou essa mágoa, nunca deixou transparecer.”

DENÚNCIA CONTRA LULA

Em setembro de 2016, os procuradores Deltan Dallagnol, Januário Paludo, Roberson Pozzobon, Antonio Carlos Welter e Júlio Noronha foram a Brasília para se reunir com Janot e “cobrar uma inversão da minha pauta de trabalho”.

Queriam que ele denunciasse Lula imediatamente por organização criminosa. Ele queria começar pelo PP, depois o PMDB e por último o PT. “Precisamos que você inverta a ordem das denúncias e coloque a do PT primeiro”, disse Deltan, segundo Janot, que disse que não faria isso.

Januário Paludo explicou que a denúncia apresentada pela força-tarefa de Curitiba contra Lula no caso do tríplex “ficaria descoberta”, sem crime antecedente para o de lavagem de dinheiro.

“Se você não fizer a denúncia, a gente perde a lavagem”, disse Deltan. “Você está querendo interferir no nosso trabalho”, exclamou o procurador, “aparentemente irritado”. “[…] vocês é que querem interferir no meu”, respondeu Janot. “Mas, se não for assim, nós vamos perder a denúncia”, disse Januário.

A CONVERSA DE JOESLEY E TEMER

Janot manifesta espanto ao receber a gravação da conversa do empresário Joesley Batista, dono da JBS, com o então presidente Temer, como se não soubesse das negociações.

Descreve Joesley como “bilionário de fala caipira” e diz que ele “fala como se estivesse lendo Guimarães Rosa de trás para a frente”.

Pediu para ouvir tudo quando lhe disseram que os empresários queriam imunidade. “Então traga todo o material. Quero ouvir tudo”.

“Moçada, não temos que pensar muito. Isso aqui é crime em curso. Temos que interromper esses crimes agora. Se não interrompermos, se não fizermos acordo, esse material é inservível, não posso usar. Como é que eu vou interromper essa merda sem acordo? Eu vou ter que fazer acordo, sim. E vamos dar imunidade”.

Falou com o ministro do Supremo Edson Fachin, fez “curto relato” sobre os diálogos com Temer e Aécio e a narrativa dos donos da JBS.

“Deixei os áudios com ele e fui embora. Um ou dois dias depois, retornei ao seu gabinete.” Explicou então que negociavam delação e precisavam de autorização para ação controlada.

Fernanda Tórtima pediu para ele receber os irmãos Batista no gabinete. Queriam posar para fotos.

Estavam “apreensivos quanto ao desfecho do acordo”. Queriam saber se Fachin ia homologar. Janot disse que não receberia ninguém. “[…] se eu tivesse acolhido aquele pedido, eles poderiam ter me gravado para, num outro momento, ostentar uma intimidade comigo que não tinham. As fotos não deixariam dúvidas sobre a suposta amizade”.

Procurado pelo jornal O Globo, soube do vazamento e negociou acordo com João Roberto Marinho, para que segurasse a informação em troca de aviso prévio de meia hora quando a operação fosse deflagrada.

Quem passou a informação para o Globo? “Gente ligada aos delatores […] para pressionar pela homologação”, diz Janot.

CRÍTICAS À FOLHA

Ao discutir a delação da JBS, Janot critica reportagens da Folha que lançaram dúvidas sobre a gravação da conversa que o empresário Joesley Batista teve com o presidente Michel Temer em março de 2017: “Esperei longamente uma revisão do caso pela Folha, o que não aconteceu até minha aposentadoria”.

PLANO DE MATAR GILMAR MENDES

Descreve “amargura” provocada por nota de revista semanal que apontava a filha Letícia como alvo de denúncias.

“[…] era como se estivessem arrancando meu fígado sem anestesia. Num dos momentos de dor aguda, de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina que, em meio àquela algaravia orquestrada pelos investigados, resolvera fazer graça com minha filha. Só não houve o gesto extremo porque, no instante decisivo, a mão invisível do bom senso tocou meu ombro e disse: não.”

VICE DE AÉCIO

Janot diz que, em 2017, o então senador Aécio Neves (PSDB-MG) o convidou para ser ministro da Justiça em um eventual futuro governo. Aécio o procurara para saber se era alvo da delação da Odebrecht e se seria investigado.

O tucano depois teria sugerido a Janot que ele poderia ser o vice da sua chapa presidencial.

Após deixar a Procuradoria-Geral da República, em 2017, Janot se separou da esposa. Aposentou-se em abril deste ano, depois de 34 anos de atividade no Ministério Público.

NADA MENOS QUE TUDO: BASTIDORES DA OPERAÇÃO QUE COLOCOU O SISTEMA POLÍTICO EM XEQUE

  • Preço R$ 55,90 (256 págs.)
  • Autor Rodrigo Janot, Jailton de Carvalho, Guilherme Evelin
  • Editora Planeta do Brasil

Source: Em livro, Janot cita choro de políticos e ‘farmacinha’ de bebidas na PGR; leia resumo – 27/09/2019 – Poder – Folha

Você pode gostar...