Arquivo mensal setembro 2018

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País envelhece, sofre com gargalos e experimenta retrocesso na saúde

Ao mesmo tempo em que se consolida como o maior sistema público do mundo, SUS apresenta problemas crônicos de subfinanciamento e ineficiência; dados recentes apontam recuos

 Filas, dificuldade de acesso a especialistas, longo tempo de espera por cirurgias eletivas e emergências superlotadas. No caminho que percorre no sistema de saúde, o brasileiro se depara com situações caóticas, agravadas por problemas de organização da rede e escassez de recursos.

Área apontada em pesquisas como uma das principais preocupações da população, a saúde vive um paradoxo.

Em 30 anos, o SUS (Sistema Único de Saúde) consolidou-se como o maior sistema de saúde gratuito do mundo, atendendo a quase 75% da população do país.

A oferta de serviços, porém, é desafiada por um quadro crônico de subfinanciamento, que pode piorar nos próximos anos. Ao mesmo tempo, diante de uma projeção de aumento nos gastos, o sistema desperdiça recursos por conta da ineficiência.

Relatório do Banco Mundial indica que nos próximos 12 anos o SUS poderia economizar R$ 115 bilhões se buscasse mais eficiência na sua rede. Entre as sugestões, está a ampliação do programa ESF (Estratégia de Saúde da Família).

Recentemente, um novo ingrediente agravou ainda mais a situação: com a recente recessão econômica, mais de 3 milhões de pessoas perderam seus planos de saúde e muitos têm recorrido ao SUS.

O setor também tem registrado sinais preocupantes de retrocesso, com aumento nas taxas de mortalidade infantil e materna -e queda nos índices de vacinação.

Dados inéditos do Ministério da Saúde disparam um novo alerta: o crescimento no índice de mortalidade por doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças respiratórias crônicas na população de 30 a 69 anos. São mortes evitáveis e prematuras.

Um estudo publicado na revista científica “The Lancet” que analisou dados da carga de doenças nos últimos 30 anos conclui que o brasileiro passou a viver mais e melhor (as expectativas de vida ao nascer aumentou seis anos e a de vida saudável, cinco), mas essas melhorias não foram suficientes para eliminar as iniquidades em saúde.

Em outro paradoxo, o país vê avanços como a melhoria de indicadores de doenças transmissíveis. Mas, ao mesmo tempo, enfrenta o risco de ressurgimento de algumas consideradas eliminadas ou que estavam neste caminho, como o sarampo e a malária.

Embora as propostas para melhorar o setor sejam razoavelmente conhecidas, o país ainda derrapa para torná-las viáveis: aumento da cobertura de atenção primária, considerada porta de entrada do usuário na rede; maior organização da gestão por meio de regiões de saúde; e melhoria na integração dos dados do setor, segundo especialistas e estudos consultados pela Folha.

Nos próximos anos, o desafios serão ainda maiores, com o acelerado processo de envelhecimento da população e o consequente crescimento na carga de doenças crônicas, que são as que mais encarecem as despesas com saúde.

A partir de 2030, pela primeira vez na história, o país terá mais idosos do que crianças. Serão 41,5 milhões (18% da população) de pessoas acima de 60 anos contra 39,2 milhões (17,6%) das que terão de zero a 14 anos. Hoje os idosos somam 29,4 milhões (14,3% da população).

Se a reorganização do sistema de saúde já era necessidade, agora se torna urgência.

DEZ GARGALOS DE SAÚDE NO BRASIL

1 – Pouco gasto público em saúde
O SUS vive um crônico subfinanciamento, menos da metade do gasto total em saúde é público. Além de pouco, parte dos recursos é desperdiçada por ineficiência

2 – Atenção primária pouco resolutiva
A cobertura da Saúde da Família ainda é baixa, muitas equipes trabalham em situações precárias e estão sobrecarregadas

3 – Ambulatórios e emergências sobrecarregadas
Enfrentam sobrecarga de pacientes de baixa complexidade, fluxos desorganizados e pouca oferta de especialistas e exames

4 – Excesso de médicos nos grandes centros urbanos
País tem dificuldade em fixar médicos em cidades menores e mais distantes das capitais e vê piorar a qualidade da formação

5 – Hospitais pequenos e pouco eficientes
Cerca de 80% dos hospitais do país são pequenos e com baixa taxa de ocupação de leitos, o que os tornam pouco eficientes

6 – Falta de leitos em hospitais gerais
Pacientes sem chances de cura ocupam leitos de UTI quando poderiam ser cuidados em centros médicos fora de hospitais

7 – Não há integração de dados
Não há trabalho em rede ou coordenação do cuidado, com repetição desnecessária de exames

8 – Falta avaliação de desempenho e qualidade
Por falta de medição e divulgação de indicadores de custo e de qualidade, não é possível remunerar pelo desempenho da assistência

9 – Gestores sem formação técnica
A maioria dos gestores do SUS é escolhida por indicação política, ao contrário de outros países que valorizam formação técnica

10 – Falta de foco no idoso e no doente crônico
País está envelhecendo e vive aumento da prevalência de doenças crônicas, mas falta política de saúde voltada para essa população

Fonte: País envelhece, sofre com gargalos e experimenta retrocesso na saúde – Introdução – E agora, Brasil? – Saúde – Folha de S.Paulo

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‘Virada da morte’ começa em SP com discussão sobre tabu do brasileiro a respeito do tema 

 Um dos workshops apresentará o movimento das doulas da morte, que ganha força nos EUA

Começa nesta segunda (24) uma programação inédita no Brasil para discutir qualidade da morte a partir de palestras, workshops, intervenções urbanas, filmes e peças teatrais. É uma espécie de “virada” sobre o fim da vida.

Inspirado em um similar evento anual americano, “Inspirações sobre Vida e Morte” terá conferencistas nacionais e internacionais, como a musicista Yoko Sen, o diretor do Zen Hospice Project, Roy Remmer e o fundador da plataforma “Death Over Dinner”, Michael Hebb.

Pessoas rezam em igreja
Pessoas rezam em igreja – Bryan R. Smith/Associated Press

Um dos workshops apresentará o movimento das doulas da morte, que ganha força nos Estados Unidos e na Europa. O conceito é parecido com o das doulas que apoiam as mães e os seus parceiros durante a gestação e o parto, ou seja, oferecer suporte emocional aos que estão no fim da vida.

Uma pesquisa sobre como o brasileiro encara a morte abrirá o evento nesta segunda. Apesar de o método (sondagem online) não permitir representar o país como um todo, os resultados mostram que a morte é ainda um assunto tabu: 74% afirmam não falar sobre o fim da vida no cotidiano.

A maioria dos pesquisados associa a morte com tristeza (63%), dor (55%), saudade (55%), sofrimento (51%) e medo (44%). Poucos fazem ligação com sentimentos como aceitação (26%) e libertação (19%).

Com uma amostragem de mil pessoas, a pesquisa mostra que o desconforto com os rituais da morte também é grande: 45% não se sentem muito à vontade para ir a um velório ou enterro. O trabalho foi encomendado pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) e realizado pelo Studio Ideia. Nesta segunda também vão acontecer intervenções urbanas pela cidade como projeto “Antes de eu morrer”.

O consultor em desenvolvimento humano Tom Almeida, criador do evento, diz que três mortes (da mãe, do pai e de um primo) o despertaram para a causa.

A mãe, segundo ele, morreu entubada, sedada, e a família não participou das tomadas de decisões.

Já com o primo e o pai as coisas foram diferentes. O primo, por exemplo, pediu para não ir para a UTI e nem ser entubado. Preparou o testamento vital e pediu para que Tom fizesse valer a sua vontade.

Na morte do pai, não foi diferente. Almeida também não deixou que ele fosse levado para a UTI ou sedado antes da hora. “Fiquei dois dias e meio me despedindo dele. Meus sobrinhos ficaram de mãos dadas com ele, conversando. Precisamos mudar o olhar. O comum é ficar todo mundo preocupado com a doença e o tratamento e esquecer da pessoa.”

Desde o ano passado, Almeida e a médica Ana Claudia Arantes, autora do livro “A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver”), desenvolvem juntos o projeto o Cineclube da Morte, no Caixa Belas Artes. Após o filme, organizam uma roda de conversa.

Para ele, o tabu sobre a morte é tão grande que os brasileiros estão carentes de um espaço para falar à vontade sobre o tema. “No fim, a essência é sempre falar sobre a vida.”

Segundo Almeida,  a ideia do evento é despertar nas pessoas uma maior consciência sobre cuidados paliativos, aceitação da finitude como parte da vida e engajar todos, inclusive os profissionais da saúde e estudantes.

Uma pesquisa feita pela consultoria britânica Economist Intelligence Unit, o Índice de Qualidade de Morte 2015, mostra que os brasileiros estão sofrendo no fim da vida mais do que pessoas em outras partes do mundo.

O país ficou em 42ª colocação entre 80 países analisados. O estudo considerou o acesso a analgésicos, equipes de saúde multidisciplinares e o próprio tratamento da morte como um assunto a ser evitado ou naturalizado.

Fonte: ‘Virada da morte’ começa em SP com discussão sobre tabu do brasileiro a respeito do tema – 24/09/2018 – Equilíbrio e Saúde – Folha

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Decisão liminar anula patente de remédio contra a hepatite C no país 

A Justiça Federal do Distrito Federal deferiu pedido de liminar da candidata da Rede, Marina Silva, e anulou a patente sobre o sofosbuvir, medicamento que cura a hepatite C em mais de 95% dos casos.

A decisão do juiz Rolando Spanholo, da 21ª Vara da SJDF (Seção Judiciária do Distrito Federal), foi assinada no domingo (23). Segundo o documento, ao dar a patente do sofosbuvir para a farmacêutica americana Gilead, o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) contraria manifestação do CNS (Conselho Nacional de Saúde) e poderia inviabilizar o cumprimento da meta assumida pelo Brasil de erradicar a doença até 2030.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Gilead, que não havia se posicionado até o fechamento da reportagem. Segundo aFolha apurou, a empresa deve recorrer da decisão liminar.

Paciente faz exame para diagnosticar hepatite C
Paciente faz exame para diagnosticar hepatite C – Fernando Nascimento/Folhapress

“É inquestionável que a situação envolvendo a dramática situação dos doentes com hepatite C (que depositam no SUS a esperança da cura) exige uma pronta e firme intervenção do Poder Judiciário”, diz o texto. “Afinal, estamos falando da vida de quase um milhão de brasileiros que não podem ser largados à própria sorte (lembrando que, por ano, no Brasil, essa brutal doença ceifa a vida de aproximadamente 3.000 pessoas).”

Ana Lemos, diretora-geral dos Médicos sem Fronteiras, organização que entrou com representação junto ao ministério público federal questionando a patente, comemorou o parecer. “A decisão da justiça é importante porque considera que a análise da patente não pode ignorar seu impacto sobre a saúde pública e a própria vida das pessoas”, disse.

Pedro Villardi, coordenador do Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual (GTPI), foi na mesma linha.  “É uma decisão acertada do judiciário brasileiro, é impensável que o INPI pense que decisões técnicas devam ser emitidas desconsiderando a função social da propriedade e a garantia constitucional do direito à saúde”, disse.

Países como Egito, Argentina e China não concederam a patente à Gilead e produzem os genéricos. Outras nações, como o Chile, estudam quebrar a patente (licenciamento compulsório) do sofosbuvir.
A candidata havia criticado a decisão do instituto nas redes sociais na terça-feira (18).

“O caso do sofosbuvir, cujo genérico já foi sintetizado pela Fiocruz e autorizado pela Anvisa, é de interesse de saúde pública. O governo deveria liberar imediatamente a fabricação do genérico”, disse nas redes sociais.

Antes do sofosbuvir, que revolucionou o tratamento da hepatite C em 2014, o tratamento mais eficaz curava apenas cerca de 50% dos casos. O Ministério da Saúde anunciou um plano para eliminar a hepatite C até 2030, e o SUS passou a tratar todos os pacientes com os novos antivirais, e não apenas os doentes mais graves.

Um convênio entre Farmanguinhos-Fiocruz e Blanver obteve registro da Anvisa para fabricar o sofosbuvir genérico. Em tomada de preços no início de julho no Ministério da Saúde, a Gilead ofereceu o sofosbuvir a US$ 34,32 (R$ 140,40) por comprimido, e a Farmanguinhos ofertou o genérico a US$ 8,50 (R$ 34,80).

Hoje, o ministério paga US$ 6.905 (R$ 28.241) pela combinação de marca. Com a nova proposta, passaria a pagar US$ 1.506 (R$ 6.160), com a Fiocruz e a Bristol. Dada a meta de tratar 50 mil pessoas em 2019, isso significaria uma economia de US$ 269.961.859 (R$ 1,1 bilhão) em relação aos gastos com a combinação sem o genérico.

A assessoria do INPI afirmou que o instituto ainda não foi intimado oficialmente, portanto não irá se pronunciar.  ​

Angela Boldrini , Letícia Casado e Patrícia Campos Mello

Fonte: Decisão liminar anula patente de remédio contra a hepatite C no país – 24/09/2018 – Cotidiano – Folha

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Pequeno círculo de poder celebrou fogo no Museu Nacional 

Em artigo à Folha, reitor da UFRJ rebate críticas e fala em reconstrução

Roberto Leher, reitor da UFRJ
Roberto Leher, reitor da UFRJ – Zo Guimarães/Folhapress

As imagens do incêndio do Museu Nacional (MN) provocaram dor e indignação em todas as pessoas que amam a cultura, a ciência e a educação. Mais do que um acervo maravilhoso de 20 milhões de itens, cada coleção foi organizada a partir de muita pesquisa, expedições, vivências com povos originários e exaustivo trabalho de laboratório.

O mundo da ciência internacional, chefes de Estado e governo e os maiores museus do planeta expressaram seu pesar de modo vívido: ‘nossos corações estão rasgados’. No Brasil, um pequeno círculo de poder, parte dele localizado no topo da pirâmide financeira, ao contrário, celebrou intimamente o acontecimento, pois viu no drama uma oportunidade de converter os museus científicos ao controle da indústria do entretenimento capaz de auferir lucros.

Refletindo o espírito do tempo, um estranho consórcio entre certa imprensa e a direita fundamentalista viu no acontecimento a chance de revisitar a Guerra Fria, imputando à concepção de mundo de esquerda do reitor a determinação da causa do incêndio, tudo isso, antes do laudo pericial da Polícia Federal.

Em reuniões palacianas, em sintonia com o irracionalismo em curso no país, aqueles círculos dedicaram-se a empreender forte ofensiva para desestabilizar a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e seus dirigentes, supondo equivocadamente que, com isso, a opinião pública passaria a apoiar a conversão mercantil das instituições museais.

Todos os grandes museus construídos recentemente na perspectiva mercantil acabaram custando, no mínimo, o dobro do que o planejado, alguns sequer foram concluídos. A afirmação de que a UFRJ é manipulada partidariamente foi recebida com indignação por sua comunidade, sempre zelosa com interesses particularistas hostis à liberdade científica.

Entretanto, a simbiose entre o baronato do bloco de poder e os subterrâneos de cariz fascista das mídias virtuais não pode deixar de interpelar os rumos da democracia no país. Em editorial no dia 17 de setembro, o jornal O Globo ofendeu profundamente a ciência brasileira, ao chamar a UFRJ e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro de instituições falidas.

A causa da falência seria má gestão, exemplificada pelos gastos com pessoal. Para induzir o leitor a aderir à sua narrativa o editorial afirmou que a UFRJ gastava demais com folha de pessoal, incluindo os custos com aposentados e pensionistas. Todos os que trabalham com orçamento sabem que estes gastos deveriam ser contabilizados em rubrica à parte, pois envolve recursos lastreados pelo regime da previdência e, por isso, a OCDE exclui de sua metodologia de gastos educacionais.

Muitas publicações chegaram a criticar a UFRJ por supostamente ter recusado, na década de 1990, uma oferta de US$ 80 milhões do Banco Mundial, informação desmentida em nota oficial pelo próprio banco. Uma pesquisa breve sobre a situação do patrimônio cultural brasileiro e das instituições museais com acervos de valor histórico e científico confirmará o que a UFRJ vem alertando de modo sistemático: inexiste qualquer item do orçamento da União dedicado às edificações tombadas, pertencentes às universidades federais e às unidades museais, nem mesmo no MinC, ao qual está vinculado o Iphan.

Quando os orçamentos de custeio e de capital das universidades são decrescentes, o quadro obviamente piora de modo preocupante. Em 2014, o orçamento da UFRJ era de R$ 434 milhões; este ano, foi de R$ 388 milhões. E as verbas de investimentos (novos equipamentos, edificações) caíram de R$ 52 milhões, há quatro anos, para R$ 6 milhões em 2018.

Foi nesse quadro de profunda falta de recursos que a UFRJ teve de buscar meios para celebrar, com a grandiosidade merecida, os 200 anos do Museu Nacional. Três grandes metas foram estabelecidas: reforma estrutural do prédio, incluindo prevenção de incêndio; deslocamento para novas edificações de todos os laboratórios, atividades administrativas, e a realização da maior exposição de sua história, visto que todo o palácio estaria liberado para tal fim.

O ritmo de trabalho dos pesquisadores, técnicos-administrativos e estudantes nesse período foi febril. Contudo, entre 2015 e 2017, nem o MinC, nem o MEC aportaram recursos para a celebração. O trabalho no parlamento resultou em uma emenda de bancada de R$ 20 milhões, mas, novamente, o governo não liberou os recursos. A UFRJ não esmoreceu.

Junto com a Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN), elaborou seis projetos para a Lei Rouanet, um deles para prevenção de incêndio, totalizando R$ 17,6 milhões. Mas o setor empresarial não se interessou. Houve apenas a captação para a realização de uma exposição, de R$ 1 milhão. A reitoria, prevendo as dificuldades, trabalhou com a SAMN e a direção do MN um ambicioso projeto com o BNDES, abrangendo a reforma estrutural, prevenção de incêndio e retirada das atividades acadêmicas e administrativas para liberar o prédio para exposições.

Uma excelente parceria possibilitou um projeto de R$ 21 milhões. Contudo, infelizmente, os recursos não chegaram a tempo de evitar o dramático acontecimento. A UFRJ e o MEC têm um compromisso com o Brasil. A reconstrução já está em curso. Reforço estrutural, cobertura e busca de acervos ainda existentes nos escombros. Ao mesmo tempo, novas expedições e pesquisas acontecerão para buscar acervos perdidos. Missões internacionais estão buscando doações, empréstimos e parcerias com as melhores instituições do mundo. No MN existem dois milhões de itens não afetados pelo incêndio de extrema importância científica, pesquisados pelos melhores programas de pós-graduação.

A instituição é referência internacional em Antropologia Social, Zoologia, Arqueologia, Botânica, Geociências e Linguística. Em reunião com mais de trinta deputados da bancada federal do Rio de Janeiro, todos manifestaram apoio à criação de nova emenda parlamentar, agora impositiva, para construir uma nova e moderna edificação.

Muitos governos internacionais se dispuseram a contribuir. A próxima Lei Orçamentária deve prever recursos para iniciarmos novo projeto e as primeiras etapas da construção até o final de 2019. A UFRJ tem expectativa de que o terrível acontecimento permita a inclusão de recursos do MEC e do MinC, especificamente, para a manutenção de prédios tombados e direcionados à ciência e à cultura. Como política permanente, voltada para todas as universidades públicas. E mais: que a tragédia eduque os que possuem condições econômicas para que olhem e apoiem os museus de ciências e cultura.

O Museu Nacional vive. No seu hall de entrada está exposto o maior e mais pesado meteorito caído e encontrado em terras brasileiras, o Bendegó, encontrado no sertão baiano, em 1784. Foi uma das peças que resistiram ao incêndio e permanece aos olhos de quem se aproxima do edifício. A sua têmpera nos serve de inspiração.

Roberto Leher
Reitor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Fonte: Pequeno círculo de poder celebrou fogo no Museu Nacional – 24/09/2018 – Cotidiano – Folha

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Estão tirando Haddad à força do campo democrático 

 Ao tentar expulsar um dos candidatos, nossos articulistas acabam por mostrar que não pertencem ao campo democrático

Articulistas e formadores de opiniões estão desesperados com o resultado das recentes pesquisas de intenções de voto. Pra isso, afinal, servem os articulistas: pra se desesperar com o voto da população, essa classe de despreparados. O povo não chega a ficar chateado com eles, porque uma das coisas que une os formadores de opinião do país é que, por sorte, ninguém os lê.

Ontem uma dúzia de articulistas lamentavam a mesma coisa: os dois primeiros colocados no Datafolha estão fora do campo democrático.

Que Bolsonaro esteja fora, vá lá, é impossível discordar. O candidato do PSL já afirmou não acreditar em direitos humanos, direitos civis, na Constituição ou na urna eletrônica —basicamente, está pro jogo democrático assim como o rato do estádio de São Januário está pros jogos do Vasco ou como o padre irlandês está pras maratonas. Entrou em campo, mas não significa que entendeu as regras do jogo e menos ainda que vai respeitá-las.

Mas e Haddad? O candidato do PT estaria fora do campo democrático por defender a inocência de um homem preso. E não pode?

Pelo jeito, na democracia dos articulistas perde-se o direito de advogar pela inocência de um condenado. Esta parece ser a única transgressão praticada por aquele que é o membro mais moderado do partido que chegou ao poder mais vezes pela via democrática na história recente.

Ao tentar expulsar à força um dos candidatos do campo democrático, nossos articulistas acabam por mostrar que eles mesmos não estão no campo democrático.

Pra combater as urnas, propõem, em uníssono, uma puta solução: todas as candidaturas do centro (sic) democrático deveriam abdicar da sua candidatura pra apoiar Geraldo Alckmin, o quarto colocado nas pesquisas.

Por que fariam isso? Fica a dúvida. Mas que conceito estranho de democracia.

Fonte: Estão tirando Haddad à força do campo democrático – 24/09/2018 – Gregorio Duvivier – Folha

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“Somos inimigos do fascismo”, diz torcida gremista

Fonte: “Somos inimigos do fascismo”, diz torcida gremista | Brasil 247

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Os desreguladores hormonais presentes em plásticos e cosméticos encontrados em crianças brasileiras 

Compostos estavam presentes em concentrações elevadas, principalmente no Norte e Nordeste

Diariamente, absorvemos diferentes contaminantes presentes não só no ar, na água e em alimentos, mas também em diferentes produtos –de garrafas plásticas, detergentes, papéis emitidos pela máquina de cartão de crédito a esmaltes, sabonetes e plástico filme.

Conhecidas como “desreguladores endócrinos”, algumas destas substâncias podem interferir na síntese e na ação de hormônios, responsáveis por funções como metabolismo, crescimento, desenvolvimento, reprodução, sono e estado de ânimo.

A fim de verificar o nível de exposição de crianças brasileiras a essas substâncias, um grupo de pesquisadores analisou a concentração de 65 desreguladores endócrinos em urinas de 300 crianças das cinco regiões do país, com idades entre 6 e 14 anos.

Segundo a pesquisa, os compostos químicos associados ao uso de cosméticos, produtos de cuidado pessoal e plásticos foram encontrados em concentrações elevadas, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país.

“Os dados da pesquisa mostram que crianças brasileiras estão expostas a alguns desreguladores hormonais em concentrações maiores do que aquelas encontradas em países como EUA, Canadá e China, que realizam esse estudo mais rotineiramente”, diz Bruno Alves Rocha, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto e autor do estudo, publicado na revista científica Environmental International.

Iniciada em 2016 e realizada em parceria com pesquisadores do Departamento de Saúde do Estado de Nova York, a pesquisa apontou que a maioria dos desreguladores relacionados ao uso de cosméticos e produtos de cuidado pessoal foram encontrados em maior concentração nas meninas.

Esta diferença chegou ao dobro em algumas substâncias –como o triclosan (presente em desodorantes e sabonetes antibacterianos), alguns parabenos (conservantes) e alguns benzofenonas (utilizados principalmente na formulação de esmaltes e presentes em protetores solares, produtos de maquiagem e produtos de cabelo).

“Isso mostra que esses produtos são uma fonte importante de exposição a estas substâncias”, avalia o pesquisador. De acordo com a consultoria Euromonitor International, o mercado de cosméticos e produtos de cuidado pessoal voltados ao público infantil no Brasil foi o terceiro maior do mundo em 2017.

Outro destaque da pesquisa, segundo artigo publicado na revista Science of the Total Environment, se refere à presença de ftalatos em pelo menos 90% das amostras de urinas analisadas. A partir do cálculo do nível de ingestão diária, os pesquisadores apontaram que um terço das crianças apresentou níveis tóxicos dessa substância.

Além de compor fragrâncias em produtos como sprays de cabelo, loções pós-barba, sabões, xampus e perfumes, os ftalatos também são usados como solventes e na fabricação de plásticos mais flexíveis ou resistentes –estando presentes em produtos de limpeza, resinas e principalmente em plásticos (como o policarbonato, plástico filme, embalagens e brinquedos).

Procurada pela BBC News Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) disse que “não está claro o efeito dos ftalatos na saúde humana”. E a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) disse que ainda são necessários estudos científicos para entender “quando, onde e como usar seguramente cada substância” (leia mais abaixo).

CONSEQUÊNCIAS AINDA DESCONHECIDAS

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 800 compostos químicos suspeitos de interferir no sistema hormonal e “apenas uma pequena fração” dessas substâncias foi investigada. A organização diz que a falta de dados traz “incertezas sobre a extensão dos riscos”.

“Muitas (dessas substâncias) propiciaram melhorias e progressos ao longo do século 20, mas ainda precisamos investigar os impactos sobre a saúde humana, principalmente quando elas estão associadas”, diz Denise Pires de Carvalho, médica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia Médica (SBEM) e professora de biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Apesar das divergências na literatura científica sobre quais concentrações dessas substâncias são consideradas aceitáveis, em 2016, a Comissão Europeia divulgou uma lista com 66 compostos químicos avaliados de terem “clara evidência de perturbação da atividade endócrina”.

Em 2016, os EUA proibiram a comercialização de sabonetes antibacterianos que contenham 19 ingredientes químicos, incluindo o triclosan (agente bactericida), sob a justificativa de não haver garantias de que essas substâncias sejam seguras. A determinação se baseou em pesquisas que indicaram que a exposição prolongada às substâncias analisadas pode provocar alterações hormonais e aumentar a resistência bacteriana.

Estudos recentes investigam impactos de desreguladores endócrinos sobre o sistema reprodutor humano. Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Rochester, em Nova York, apontou que alguns ftalatos bloqueiam a ação do hormônio masculino testosterona em bebês, interferindo no desenvolvimento genital e cerebral de meninos. Cientistas também investigam se a queda da qualidade do sêmen no mundo, verificada pela OMS, está relacionada à ação de desreguladores endócrinos.

Em 2011, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a presença do bisfenol A (usado na produção de plástico policarbonato) em mamadeiras destinadas a crianças de até 12 meses.

“Hoje sabemos que essa substância está associada a diabete mellitus e obesidade infantil, além de poder causar puberdade precoce e alterações na tireoide”, afirma Carvalho, da UFRJ.

No estudo do pesquisador da USP, a mineração dos dados –metodologia que verifica padrões em uma grande quantidade de informações– apontou que urinas com altas concentrações de diferentes desreguladores também apresentaram maiores concentrações de 8OHDG, molécula que, em grande quantidade, indica a ocorrência de lesão nas células.

“Este processo danifica o DNA e favorece a ocorrência de obesidade, infertilidade, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, principalmente aqueles relacionados ao sistema reprodutor”, explica Rocha.

Um terço dos 65 compostos químicos analisados na pesquisa apareceu simultaneamente em pelo menos metade das amostras e apresentaram altas concentrações de 8OHDG, o que indicou a associação entre diferentes compostos e a ocorrência de estresse oxidativo.

“Analisar a coexposição é importante porque as pessoas não estão em contato com um só contaminante, mas com vários ao mesmo tempo. Eles atuam juntos”, diz o pesquisador.

NECESSIDADE DE INVESTIGAÇÃO

Por e-mail, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos disse que “o estudo é muito recente e existem variáveis importantes que precisam ser conhecidas/controladas para poder analisar os resultados identificados.”

Já a Associação Brasileira da Indústria Química enfatizou que, sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente, a Comissão Nacional de Segurança Química (Conasq) está formulando um regulatório nacional que dispõe sobre o cadastro, a avaliação e o controle de substâncias químicas industriais.

Contatada pela BBC News Brasil, a Anvisa disse adotar os limites apontados em avaliações conduzidas por autoridades internacionais e que as listas de substâncias permitidas são resultado de uma “harmonização entre os Estados do Mercosul e estão de acordo com o que está sendo praticado em outros países ou blocos, como Estados Unidos e Europa.”

A agência disse que parabenos são conservantes “bem difundidos nas indústrias e em alguns casos, de difícil substituição por questões de estabilidade do produto, custos, etc.”.

A Anvisa também disse já estar avaliando a redução da quantidade permitida de alguns parabenos e afirmou ter solicitado ao Mercosul a redução do limite de ftalatos permitidos em “materiais destinados ao contato com alimentos para crianças de até três anos.”

Questionada se a exposição simultânea é utilizada para definir os limites aceitáveis dos compostos químicos destacados na pesquisa, a Anvisa disse que “na maioria dos casos, os limites dizem respeito a análises individuais.”

PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO

A diversidade de fontes, a dosagem e a análise dessas substâncias em conjunto no organismo estão entre os principais desafios para os estudiosos do tema hoje.

“Falta metodologia para dosar as concentrações desses compostos. Pequenas contaminações ocorrem diariamente, já que eles estão presentes em várias coisas. É importante analisar a intensidade das concentrações e o tempo de exposição a elas. Se uma pessoa está exposta a grandes quantidades de forma sistemática, haverá efeitos sobre a saúde”, pondera Angela Maria Spinola, endocrinologista pediátrica e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ela enfatiza a necessidade de mapear e acompanhar as concentrações destas substâncias com regularidade, o que não é feito em países como o Brasil. “A meu ver, ainda não é possível fazer um prognóstico a partir dos dados da pesquisa da USP. É preciso um acompanhamento a longo prazo para verificar se as crianças brasileiras desenvolvem doenças a partir das altas concentrações de alguns contaminantes”, avalia Angela.

Alguns estudos indicam que a contaminação por parabenos e benzofenonas também pode estar relacionada à puberdade precoce e ao aumento de câncer de mama em indivíduos suscetíveis.

“Testes in vitro e em animais de laboratório mostraram que essas substâncias têm ações estrogênicas (agindo como os esteroides sexuais femininos) e antiandrogênicos (inibindo a ação de hormônios sexuais masculinos). Os efeitos em humanos estão sendo estudados, por isso o princípio da precaução é necessário”, diz Denise.

Aplicado pela Anvisa na proibição do Bisfenol A, este princípio prevê a adoção de medidas de proteção “sem ter que aguardar que a seriedade dos riscos se torne aparente” sempre que haja “incerteza sobre a existência ou amplitude dos riscos para a saúde humana”.

“Devemos evitar contaminações porque ainda não conseguimos definir qual a dose mínima de desreguladores endócrinos que não causam efeitos ruins no nosso organismo”, avalia a professora da UFRJ.

COMO SE PREVENIR?

De acordo com especialistas ouvidas pela BBC News Brasil, ações cotidianas podem contribuir para diminuir a exposição a desreguladores endócrinos.

“É fundamental ler os rótulos dos produtos e procurar evitar aqueles que tenham desreguladores em sua composição. Principalmente mulheres grávidas, já que elas podem armazenar essas substâncias no tecido adiposo e liberar para o feto através da placenta”, diz Denise.

Outra recomendação se refere ao cuidado com o manuseio de embalagens de alimentos.

“A contaminação dos alimentos pode ocorrer a partir de fissuras causadas nas embalagens”, explica Angela. Por isso, é recomendado não esquentar ou congelar alimentos em recipientes ou embalagens plásticas, priorizar vidro em vez de plásticos e evitar o consumo de alimentos enlatados (cuja embalagem é revestida de bisfenol A).

Fonte: Os desreguladores hormonais presentes em plásticos e cosméticos encontrados em crianças brasileiras – 23/09/2018 – Equilíbrio e Saúde – Folha

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Reinaldo Azevedo: ricos aderem a Bolsonaro por ódio aos pobres e à diferença 

Fonte: Reinaldo Azevedo: ricos aderem a Bolsonaro por ódio aos pobres e à diferença | Brasil 247

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Defensor do ‘Escola Sem Partido’, professor se veste de nazista para dar aula 

Gabriel Tebaldi, professor de história e colunista do jornal Gazeta Online, do Espírito Santo, aparece em uma foto que circula nas redes usando um uniforme nazistas com suásticas durante uma aula; atitude do historiador, que é defensor do ‘Escola Sem Partido’, vem sendo interpretada como apologia ao nazismo

Reprodução/Twitter

Mais um caso de um professor usando símbolos e referências nazistas para dar aula sobre o tema veio à tona nas redes sociais durante este final de semana. Gabriel Tebaldi, historiador formado pela Universidade Federal do Espírito Santo e professor de Ensino Médio em uma escola capixaba, aparece em uma foto vestindo, em sala de aula, um uniforme de policial nazista, repleto de suástica.

O professor é colunista do jornal local Gazeta Online e, em seus artigos, defende o projeto ‘Escola Sem Partido’ – projeto que visa “acabar” com a inexistente “doutrinação marxista” nas escolas – e faz ferrenhas críticas à Lula e ao PT.

Nas redes sociais, internautas têm acusado Tebaldi de fazer apologia ao nazismo. Tal acusação tem como base uma interpretação da Constituição Federal, que diz no parágrafo 1º do artigo 20 é citado o “Crime de Divulgação do Nazismo”: “§1º – Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular, símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena – reclusão de dois a cinco anos e multa”.

Apologia? 

Em abril do ano passado veio à tona um caso parecido de Recife (PE). Um professor ornamentou toda a sala de aula com bandeiras nazistas e se vestiu de ditador nazista durante uma aula. À época, a colunista da Fórum e especialista em neonazismo, Adriana Dias, afirmou que esse tipo de aula pode, sim, ser considerada apologia.

“O que significa apologia? Apologia é um discurso (uma ação, tida como um discurso também) que tem por fim justificar, defender, louvar alguém ou alguma coisa. Obviamente, espero que o professor não tenha tido a intencionalidade do dolo. Espero, mesmo. Mas, houve, sim, apologia. Porque não foi simplesmente um desenvolvimento de material para fim didático. Foi uma sala toda ambientada, completamente ambientada com louvor ao nazismo, com bandeiras, lembrando a sua época de opulência. O professor poderia ter feito uma suástica, poderia ter colocado no quadro, e explicado seu símbolo. Poderia. Mas, vestir a sala inteira de panteão nazi, é apologia, sim”, explicou. Saiba mais aqui.

Fórum tentou contato com o professor Gabriel Tebaldi para obter um posicionamento sobre o caso, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Fonte: Defensor do ‘Escola Sem Partido’, professor se veste de nazista para dar aula | Revista Fórum

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PF descarta depósitos suspeitos a agressor de Bolsonaro e reforça versão de que atuou sozinho 

A Polícia Federal afastou a suspeita de que Adélio Bispo de Oliveira, que no último dia 6 tentou matar o candidato Jair Bolsonaro (PSL-RJ) em Juiz de Fora (MG), tenha recebido pagamento em sua conta bancária para executar o crime.

A investigação concluiu que o dinheiro localizado com Adélio tem apenas “origem sustentável”, como uma rescisão trabalhista por um emprego em Santa Catarina, e remuneração pelo trabalho de garçom, pelo qual recebia cerca de R$ 70 por dia.

A PF apurou que o cartão de crédito internacional encontrado em poder de Adélio na verdade nunca foi utilizado e foi emitido automaticamente pelo banco em uma conta-salário de outra empresa em que ele trabalhou.

Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, responsável pelo ataque contra Jair Bolsonaro (PSL)
Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, responsável pelo ataque contra Jair Bolsonaro (PSL) – Divulgação/PM-MG

A PF também concluiu que o computador pessoal localizado com Oliveira não era recente nem caro, ao contrário do propagado em redes sociais. O aparelho era antigo e estava quebrado, tendo sido usado pela última vez no ano passado. Dos quatros telefones celulares encontrados com Oliveira, apenas dois estavam em atividade, e nenhum foi comprado nas semanas anteriores ao crime.

Segundo outra conclusão da PF, em razão dos acertos trabalhistas recentes Oliveira tinha condições financeiras próprias de pagar adiantado R$ 400 por hospedagem numa pensão em Juiz de Fora, onde ele disse que procurava emprego. Foi apreendido com Oliveira um recibo que comprova o pagamento.

Também foram investigadas todas as pessoas citadas em redes sociais como supostos cúmplices que teriam repassado a faca a Oliveira no dia do atentado. A PF descartou todas as informações, que eram falsas. Pelo menos uma mulher inocente marcada em redes sociais foi perseguida, recebeu ameaças e teve que procurar a PF para obter proteção.

A opção de Oliveira por usar uma faca para tentar matar o presidenciável pode ser explicada por outro aspecto da vida do preso levantado durante a investigação da PF.

Em um açougue em que Oliveira trabalhou em Curitiba (PR), a PF apurou que Oliveira era conhecido por manejar muito bem facas. Normalmente um novo contratado recebia um “padrinho”, responsável por tutelar o novo cortador de carnes. No caso de Oliveira, o próprio açougue dispensou o uso do “padrinho”, ao constatar que ela sabia usar as lâminas.

Oliveira também teria trabalhado como sushiman, preparador de carnes de peixe em restaurantes japoneses, o que também demanda um bom uso de facas.

Sobre a faca, um exame feito por peritos criminais federais do INC (Instituto Nacional de Criminalística) apontou traços de DNA de Bolsonaro na lâmina, de cerca de 20 centímetros, o que confirma que a faca foi a mesma usada no crime. Oliveira tinha a faca consigo muitos meses antes do crime.

Em um dos três depoimentos que prestou à PF, Oliveira disse que decidiu esfaquear Bolsonaro três dias antes da chegada do presidenciável a Juiz de Fora e que soube que ele estaria na cidade porque viu um outdoor numa rua da cidade. Ele afirmou ter feito uma fotografia do painel. Ao analisar a memória do telefone celular de Oliveira, a PF de fato encontrou a fotografia, tirada no mesmo dia indicado por Oliveira.

O presidente do inquérito e também delegado regional de Combate ao Crime Organizado da PF de Minas Gerais, Rodrigo Morais, informou que o inquérito que trata do ato do crime em si deverá ser finalizado até a próxima sexta-feira (28), mas ao mesmo tempo será aberto um novo inquérito para investigar supostos mandantes ou pessoas que teriam instigado o crime, ainda que não exista nenhuma indicação sobre isso até o momento.

A PF adotou essa estratégia porque legalmente há um prazo de 15 dias, renovável por mais 15 dias, para o final das investigações. O primeiro prazo acabou na última sexta-feira (21), quando a PF pediu mais duas semanas. O relatório final, contudo, deve ser entregue uma semana antes.

Com o novo inquérito, a PF espera aprofundar a investigação. “Não há como esgotar toda a análise de conteúdo num prazo de 30 dias. Obtivemos uma farta informação em computadores, mensagens de aplicativos, telefones. Tudo isso requer uma análise mais acurada. Com o outro inquérito, vamos poder investigar sem estarmos premidos pelo prazo do inquérito inicial”, disse Morais. No material a ser analisado estão cinco discos rígidos apreendidos numa lan house frequentada por Oliveira.

O primeiro inquérito será relatado e entregue ao Ministério Público Federal, que pode ou não oferecer a denúncia contra Oliveira. Ele foi indiciado pela PF por infração ao artigo 20 da LSN (Lei de Segurança Nacional). Segundo a PF, Oliveira confirmou em depoimento que agiu movido por razões políticas ou religiosas, o que deu base ao enquadramento legal.

O artigo prevê inicialmente pena de três a dez anos de reclusão, porém ela é aumentada para de seis a 20 anos caso o crime envolva “lesão corporal grave”. O artigo prevê o crime de “devastar, saquear, extorquir, roubar, sequestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas”.

Desde o crime, a PF recebe e está averiguando as diversas informações e teorias conspiratórias que circulam na internet e também tem recebido outra parcela de “dicas” para averiguação. O delegado Morais disse que todas as informações são levadas em conta e estão no radar da PF. “Algumas são esdrúxulas e não merecem nem consideração. Outras vamos olhar com mais atenção”, disse o delegado da PF.

Fonte: PF descarta depósitos suspeitos a agressor de Bolsonaro e reforça versão de que atuou sozinho – 22/09/2018 – Poder – Folha